quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Homem e a Descoberta de Si Mesmo

Estavam lá olhando a imensa faixa branca que se pronunciava no céu noturno. Homem e mulher paralisados. Sobre eles descortinava-se como num sonho inesperado uma multidão infinita de estrelas. Uma das crianças ficara para trás na travessia que faziam pela floresta e quando voltaram a sua procura encontraram-na impassível, olhando a esfera branca que pairava acima mergulhada numa cascata de pontos brilhantes.

Que coisa mágica deve ter sido essa descoberta!!! Até aquele dia, ninguém ainda havia se dado conta do chão no qual pisávamos, de que sob nossas cabeças um teto nos guardava desde o primeiro dia em que um sopro de vida se fez presente, de que havia o fora e o dentro, de que existia algo como o interior e o exterior, enfim, a ideia mesma de que somos alguma coisa. Quando essa criança parou e observou a Lua, admirou-se com a Lua, espantou-se com a Lua, e os outros a olharam olhando, é o momento que talvez possamos classificar como o derradeiro nascimento da consciência humana e, juntamente com ela, o mistério.

Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, subiram em cima um do outro, nos ombros, ou quem sabe procuraram a árvore mais alta, e tentaram tocar naquelas coisas brilhantes para ver do que se tratava. Minha avó me contava sobre a sua infância e dizia que quando ela e as irmãs “descobriram” a Lua, tiveram uma ideia, correram para a cozinha, pegaram uma cadeira e foram ao quintal com uma bengala e tentaram trazer abaixo o quarto crescente que despontava no horizonte e qual não foi a decepção quando perceberam que ela podia estar muito mais longe do que pensavam.

E o mistério, qual é o mistério? Os primeiros seres humanos fabricaram algumas coisas, alguns utensílios como lanças, machados, colares e outros trecos, mas quem teria feito aquelas outras coisas de que agora eles estavam se dando conta? Logo perceberam a sua incapacidade de fabricar árvores, montanhas ou estrelas, ou qualquer outra coisa encontrada pronta na natureza, portanto, logo perceberam que eram seres limitados, mas quem teria feito aquelas coisas? Assim, sem se darem conta, estavam dando os primeiros passos para a noção de divindade, afinal, para alguém fazer tudo isso só poderia ser mais poderoso do que eles, um ser superior a eles. Então, num dia que já vai longe, talvez fosse verão, talvez fosse inverno ou sabe-se lá o quê, a criatura deu luz ao criador. Ou foi o contrário?

Sabemos que a mentalidade humana em seu estado primitivo não fazia muita distinção entre o mundo dos sonhos e o mundo da realidade e, desse modo, conviviam eles, com seus monstros e deuses imaginários. Sabemos disso, porque ainda hoje existem povos primitivos e os estudos de diversos antropólogos o confirmam. Desse modo, provavelmente, as mitologias dos diversos povos foram se formando e depois, com as primeiras civilizações, as religiões foram instituídas. Por outro lado, o imaginário humano não está presente somente em mentalidades primitivas, ela faz parte de qualquer ser humano em todas as épocas, afinal o que são os nossos lobisomens, sacis, vampiros, duendes e fadas e recentemente os discos-voadores senão produtos da nossa imaginação? Ou será que eles realmente existem?

Marco Maluf 15/12/2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Crença, o Medo e as Nossas Vidas

O que fundamenta a nossa crença em alguma coisa? É sempre esta pergunta que deveríamos fazer quando nos deparamos com algo que está arraigado no mais profundo das nossas almas, sem nos darmos conta que aquilo entrou ali de algum modo, vindo de fora, como uma abdução da qual não nos lembramos de nada. Se conseguirmos chegar à raiz das nossas crenças nas coisas, provocaremos aquilo que podemos chamar de esvaziamento da alma. E com ela vem o medo, o medo do nada poderíamos dizer, a vertigem absoluta.


Um dia, há muito tempo, acreditei num ser supremo, a me julgar de lá do alto, a contar os meus débitos e créditos. Sentia muito medo desse senhor de barbas brancas sentado em seu trono celestial. Hoje não acredito mais. Não foi fácil superar a sensação de que o chão abaixo dos meus pés havia sumido. De repente me vi face a face com o abismo interminável e me deixei ser tragado por ele. Não seria essa a verdadeira experiência religiosa? O sentimento do infinito a nos golpear com seu sopro alucinante?

É possível acreditar que exista um ser superior beneficiando uns e prejudicando outros a partir da contabilização que faz do grau de devoção que dedicamos a ele? Acredito que não. Certa vez, estava eu num ônibus voltando da faculdade conversando com uma amiga exatamente sobre este assunto, de repente, um indivíduo que estava atrás de nós interrompeu-nos dizendo que era evangélico e tinha 100 % de certeza de que havia passado no vestibular em física por causa das orações que havia feito e não por causa da sua dedicação ao estudos. As perguntas que eu fiz foram as seguintes: “e os outros concorrentes que disputaram a mesma vaga que você?” Você aos olhos de Deus é mais perfeito que os outros?” Não existe nada tão ridículo e prepotente como uma afirmação desse tipo. Será que Deus possui um instrumento que mede a fé de cada um para saber qual deve ser o vencedor? Isto é, os mais fiéis seriam os vencedores? Será que aquele que é atendido em suas orações é uma pessoa especial, superior as outras, afinal, a maioria das pessoas acreditam e rezam e a grande maioria não é atendida, basta observar os fatos.

Segundo o meu ponto de vista, pensar a religião desse modo, onde fazemos trocas com um ser superior ao qual devemos respeitar acima de tudo, é algo, no mínimo, infantil. É a vontade eterna de dependermos de um pai, é o medo da autonomia, é o medo de pensar por conta própria, afinal, é mais fácil ter alguém que ordene, “faça isso”ou “faça aquilo”.

Todos acreditam em alguma coisa, eu também. Acredito que Deus não existe. Não sou contra a religiosidade, também tenho a minha e, no meu modo de entender, não é necessário uma presença sobrenatural e inteligente para dar conta da vida e de tudo mais. Existe um mistério e acredito que ele nunca deixará de existir, mas isso não autoriza imediatamente uma divindade ordenadora de tudo o que se encontra no céu e na Terra.

O meu corpo é o meu templo, o autoconhecimento é a minha oração, é o ritual que me leva ao mistério onde encontro o outro em mim mesmo, é onde me acabo e salto aos confins do universo no caos borbulhante da origem e do indecifrável colapso. Se me disserem que Deus nada mais é do que isso, então posso dizer que acredito em Deus.

Aceitar Deus sem qualquer reflexão, simplesmente pelo costume ou pelo simples fato de que se todo mundo aceita devo aceitar também, como se fosse mais um produto a ser consumido é o caminho mais curto para o ódio e a intolerância, pois tanto a indiferença quanto o fanatismo é o estado de submissão mais lastimável que existe, um ser pensante que não pensa vai contra a sua própria natureza e introduz o mundo no reino da ignorância, do medo e da barbárie completa.

Marco Maluf (14/03/2010)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O que é Filosofia?


A palavra "filosofia", assim como muitas outras palavras que falamos hoje em dia, é de origem grega e significa "amigo da sabedoria" ou "amor pela sabedoria". Amigo da sabedoria é o ser humano que reflete sobre os seus atos e as suas conseqüências e também aquele que busca o conhecimento, aquele que questiona, que duvida das primeiras explicações.

A filosofia surge, portanto, da busca do conhecimento. Na Grécia Antiga, por volta de 600 a.C., os primeiros filósofos, conhecidos como pré-socráticos (pelo fato de terem existido antes de Sócrates que é conhecido como o "pai da filosofia) começaram a fazer as seguintes perguntas: "Quem somos nós?"; "De onde viemos?"; "Qual a origem de tudo?". Desse questionamento nasce a ciência juntamente com a filosofia, tentando desvendar esses mistérios cujas respostas eram dadas até então pelas religiões e mitologias.

Marco Maluf

Stevie Wonder, Lucrécio e o medo

(Folha de São Paulo - 14/02/2010 - Marcelo Gleiser)

O que Stevie Wonder e Lucrécio, o poeta romano que escreveu "A Natureza do Universo", têm em comum? Mais do que você imagina. Na semana passada , enquanto corria perto da minha casa, ouvi a música "Superstition", de Stevie Wonder. O refrão me chamou a atenção: "Quando você acredita em coisas que não entende, então você sofre; a superstição não é o caminho".

Eis o que Lucrécio escreveu sobre o mesmo tópico, mais de 2000 anos atrás: "As pessoas vivem aterrorizadas porque não compreendem as causas por trás das coisas que acontecem na Terra e no céu, atribuindo-as cegamente aos caprichos de algum deus".

Lucrécio estava propondo um novo modo de pensar o mundo, baseado na filosofia atomística dos pré-socráticos Leucipo e Demócrito. "Pense", diria Lucrécio, "tente encontrar explicações para os fenômenos naturais dentro da própria natureza; não é necessário atribuí-los a causas sobrenaturais". A canção de Stevie Wonder diz algo semelhante, de modo popular e bem mais divertido.

Com a chegada da ciência, os mecanismos da natureza tornaram-se mais transparentes. O papel de Deus como criador e controlador do mundo foi diminuindo de importância: a natureza seguia certas leis racionais, que os homens podiam descobrir. Claro, existem muitas questões em aberto: a morte, a vida, o mistério da alma e o da criação do mundo…

Mesmo que a tecnologia digital tenha uma influência muito maior no cotidiano, livros sobre buracos negros e o Big Bang vendem bem mais do que os sobre maravilhas tecnológicas. Vemos mistérios no céu e na terra e queremos desvendá-los. Será que a ciência pode dar cabo dessa missão? Será que pode explicar tudo? …

…a ciência jamais poderá explicar a realidade por completo. Uma das razões é que simplesmente não podemos conhecer tudo o que existe.

O que sabemos do mundo material é obtido de duas formas: por meio dos nossos sentidos - vemos o Sol, sentimos calor, vemos as cores, ouvimos sons… (mesmo aqui existe um problema, já que nossa percepção da realidade pode ser distorcida) - e, de forma indireta, com nossos instrumentos. Os limites do conhecimento dependem da precisão desses instrumentos que, apesar de aumentar sempre, é limitada. Ou seja, existe uma região "lá fora", além do que podemos medir, além do que podemos saber.

Mesmo que o círculo de conhecimento cresça sempre, essa região sempre existirá. Estamos cercados por uma escuridão perene. Nossas teorias contam apenas parte da história. Será que devemos então abandonar Stevie Wonder e Lucrécio e abraçar o medo? Não! Quando pararmos de perguntar, estagnamos: o círculo do conhecimento passa a nos apertar. Se pararmos de perguntar, o conhecimento deixa de ser um desafio e transforma-se num monstro. Talvez nunca saibamos todas as respostas; mas, ao tentar, permanecemos livres.

Vocabulário:

Superstição - crença infundada em certos atos que trariam sorte, azar, etc.; crença em presságios e sinais, originadas por acontecimentos casuais ou coincidências.

Sobrenatural - O que está fora das leis da natureza; (o) que é extraordinário ou maravilhoso.

Perene - Eterno, perpétuo.

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ATIVIDADES

1.) Como sabemos, ocorrem várias catástrofes na natureza, a mais recente delas foi o terremoto no Haiti que resultou na morte de milhares de pessoas. Podemos qualificar essas catástrofes como acidentes da natureza ou castigo de Deus sobre aquela população? Justifiquem. (se houver opiniões divergentes dentro do grupo, coloquem todas).

2.) Nos trechos abaixo retirados do texto, aparecem dois sentidos diferentes da palavra "natureza". Explique qual é a diferença.

a.) O que Stevie Wonder e Lucrécio, o poeta romano que escreveu "A Natureza do Universo" têm em comum?

b.) "tente encontrar explicações para os fenômenos naturais dentro da própria natureza".

3.) Qual é a opinião do autor com relação ao conhecimento científico? Vocês concordam? Justifiquem. (se houver opiniões divergentes dentro do grupo, coloquem todas).

4.) Nos diversos canais de comunicação (Tv, Internet, jornais, revistas, livros, filmes…), ou seja, na mídia, vêm sendo divulgado já há alguns anos, o provável fim do mundo marcado para 21 de dezembro de 2012, baseado principalmente em escritos deixados pela civilização maia. O que vocês pensam a respeito? Por quê? (respondam individualmente na mesma folha da atividade em grupo).

5.) O que Lucrécio quer dizer com "encontre explicação para os fenômenos naturais dentro da própria natureza; não é necessário atribuí-los a causas sobrenaturais" ?

A Construção do Argumento (I)


Todos nós ao conversarmos no dia-a-dia estamos sempre expondo ideias nossas ou explicando alguma coisa. Ao darmos uma opinião sobre qualquer assunto acabamos defendo algumas ideias. Os motivos que damos para defender essas ideias é o que se chama de argumento. Argumentar, portanto, significa apresentar um conjunto de razões ou provas que fundamentem uma conclusão. O Argumento é essencial para descobrir quais pontos de vista são melhores que outros.

Um argumento é formado por uma ou várias premissas. A premissa é cada uma das provas que usamos para defender uma ideia. Veja o exemplo abaixo:

"O candidato 'x' é o mais cotado para vencer as próximas eleições, visto que possui o maior número de eleitores e ele sempre vence em todos os cargos nos quais é candidato."

Ideia principal ou conclusão: O candidato 'x' é o mais cotado para vencer as próximas eleições.

Premissa 1: possui o maior número de eleitores.

Premissa 2: vence em todos os cargos nos quais é candidato.

Como podemos ver acima, o conjunto de premissas forma o argumento.

ATIVIDADES

1.) Conforme o exemplo acima, indique nos textos abaixo quais são as premissas e qual é a ideia ou conclusão.

a.) O time A é o melhor do atual campeonato, pois ele tem o melhor ataque, a defesa menos vazada e o maior número de pontos ganhos. (3 premissas)

b.) O ônibus da escola deverá chegar atrasado amanhã porque a meteorologia prevê muitas chuvas para amanhã cedo e sempre que chove muito, o ônibus chega atrasado.

c.) O café não é um produto importado; portanto, não deveria ser caro, uma vez que todos os produtos importados é que são caros.

d.) Um automóvel deve custar mais do que uma bicicleta, uma vez que gasta-se muito mais com material e mão-de-obra em sua construção.

e.) Sabe-se que todas as coisas verdes têm clorofila. Como alguns automóveis são

Natureza e Cultura - Diferenças entre o homem e o animal


O ser humano graças à capacidade que tem o seu cérebro de acumular experiências, criou a cultura que é o conjunto de conhecimentos e valores de um povo e que são transmitidos de geração a geração.Os outros animais que vivem na natureza não criam cultura, eles agem de acordo com o instinto que é um ato "cego" onde é ignorada a finalidade da própria ação. A sua única preocupação é a de resolver problemas relacionados ao momento presente.

A experiência que acumulamos torna-se possível e útil para nós, pelo fato de utilizarmos a razão que é a capacidade que os homens têm de avaliar, julgar e estabelecer relações lógicas, portanto, pensar em termos do que vêm antes e o que vêm depois, ou seja, relações de causa e efeito, com isso, o homem antecipa-se ao futuro produzindo projetos para ele.

A linguagem humana é que dá ao homem a sua dimensão de temporalidade, isto é, pensar em termos de passado, presente e futuro. É a palavra que nos permite "viajar" no tempo. Por exemplo, quando digo irei ao cinema amanhã ou fui ao cinema ontem, estou remetendo o meu interlocutor à tempos diferentes graças a conjugação do verbo fazer. Desse modo, posso pensar e planejar o futuro ou avaliar um fato passado. Porém, o mais importante, é o fato de que foram pelas palavras que o nosso conhecimento foi passado ao longo dos séculos. A palavra é um símbolo e com ela representamos o mundo que está à nossa volta e também àquele que se encontra dentro de cada um de nós.

O fato de o homem ser dotado da criação simbólica o diferencia dos outros animais fazendo com que o ser humano se torne um ser histórico, um ser que constrói a sua própria história, ao contrário dos outros animais que não possuem história.

O homem vive num contínuo processo de criação de valores, ou seja, forma ideias sobre o que é o certo ou o que é o errado, noções ou conceitos como o de justiça, por exemplo. Portanto, o homem é consciente dos seus próprios atos e, por isso, é responsável por eles.

Os animais vivem em meio à natureza e se misturam com ela, vivem o instante presente. O ser humano, através do trabalho, transforma a natureza e cria a cultura. A cultura se encontra acumulada nas ciências, nas artes, nas religiões, etc. que são a grande produção da humanidade. A filosofia é também um produto do conhecimento humano e fornece as bases da civilização ocidental.

Marco Maluf

ATIVIDADES

01.) Faça uma análise dos textos A e B utilizando os conceitos de natureza, cultura, instinto e razão desenvolvidos no texto acima.

A.) "Uma aranha executa operações que se assemelham às manipulações do tecelão, e a construção das colméias pelas abelhas poderia envergonhar, por sua perfeição, mais de um mestre-de-obras. Mas há algo em que o pior mestre-de-obras é superior à melhor abelha, e é o fato de que, antes de executar a construção, ele a projeta em seu cérebro”. (Karl Marx)

B.) “Suponhamos que num planeta desconhecido encontramos seres vivos que fabricam utensílios. Isso não nos dará a certeza de que eles se incluem na ordem humana. Imaginemos, agora, esbarrarmos com seres vivos que possuam uma linguagem que, por mais diferente que seja da nossa, possa ser traduzida para a nossa linguagem – seres, portanto, com os quais poderíamos nos comunicar. Estaríamos, então, na ordem da cultura e não mais da natureza”. (Claude Lévi-Strauss).

DIFERENÇA ENTRE ANÁLISE E SÍNTESE.

Análise: Estudo das diversas partes de um todo. Na leitura de um texto significa fazer investigação e explicação das diversas partes dele, parágrafo por parágrafo, ou até frases por frases.

Síntese: Exposição abreviada e genérica. Na leitura de um texto nada mais é do que o resumo, isto é, o contrário da análise.

Édipo Rei


Édipo é filho de Laios, rei de Tebas que foi amaldiçoado de forma que seu primeiro filho tornar-se-ia seu assassino e desposaria a própria mãe. Tentando escapar da ira dos deuses, Laios manda matar Édipo logo de seu nascimento. No entanto, a vontade do destino foi mais forte e Édipo sobreviveu, salvo por um pastor que entregou-o a Políbio, rei de Corinto. Já adulto, Édipo descobre sobre a maldição que lhe foi atribuída e para que ela não fosse cumprida, foge de Corinto para Tebas, sem saber que lá sim é que seus pais verdadeiros o esperavam. No meio da viagem, encontra um bando de mercadores e seu amo, sem saber que seu destino estava já se concretizando, mata a todos. Assim que chega a Tebas, Édipo livra a cidade da horrenda esfinge e de seus enigmas, recebendo a recompensa: é eleito rei e premiado com a mão da recém-viúva rainha Jocasta. Anos se passam e Édipo reina como um verdadeiro soberano e tem vários filhos com Jocasta, mas a cidade passa por momentos difíceis e a população pede ajuda ao rei. Após uma consulta ao oráculo de Delfos, que responde pelo deus Apolo, os tebanos são alertados sobre alguém que provoca a ira dos deuses: o assassino de Laios, que ainda vive na cidade. Édipo então decide livrar seu reino desse mal e descobrir quem é o assassino, desferindo uma tremenda maldição:

Proíbo que qualquer filho da terra onde me assistem o comando e o trono dê guarida ou conversa ao assassino, seja ele quem for; que o aceite nos cultos e no lar, que divida com ele a água lustral! Eu ordeno, ao contrário, que o enxotem de suas casas, todos, por ser aquilo que nos torna impuros, conforme acaba de nos revelar, por seu oráculo, a fala do deus! (…) E ainda mais: rogo aos céus, solenemente, que o assassino, seja ele quem for, sozinho em sua culpa ou tenha cúmplices, tenha uma vida almadiçoada e má, pela sua maldade, até o fim de seus dias. Quanto a mim, se estiver o criminoso em minha casa, privando comigo, eu espero que sofra as mesmas penas que dei para os demais.

Ele só não esperava que essa maldição iria sobrecair sobre ele próprio, assim que no mesmo dia descobrisse a verdade, através do pastor que o encontrara ainda quando bebê, pendurado em um bosque pelos tornozelos.

Jocasta suicída-se assim que descobre, e Édipo se cega, perfurando os próprios olhos e exilando-se.

domingo, 4 de outubro de 2009

Definindo Teoria


(1) A palavra “teoria” vem aparecendo bastante na mídia, em parte devido ao debate entre criacionismo e ciência. Existem usos diferentes do termo que acabam criando confusão. No seu uso mais popular, o termo descreve um corpo de ideias ainda incerto, baseado em especulações não demonstradas. Teoria, para muitos, significa um corpo de hipóteses esperando ainda por confirmação. Às vezes, o uso popular do termo distancia-se ainda mais do científico, significando ideias que são meio absurdas, fora da realidade: “Ah, esse cara sempre foi um inventor de teorias, não sabe do que está falando”, ou “isso aí não passa de uma teoria, provavelmente é besteira.
(2) Teoria em ciência significa algo completamente diferente. O termo mais apropriado para uma ideia de caráter especulativo é hipótese, e não teoria. Uma hipótese é justamente uma suposição não provada, aceita provisoriamente como base para investigações futuras. Por exemplo, a panspermia é uma hipótese que sugere que a vida na Terra veio de outras partes do cosmo. Não sabemos se está certa ou errada, mas podemos tentar comprová-la ou refutá-la. Já uma teoria consiste na formulação de relações ou princípios descrevendo fenômenos observados que já foram verificados, ao menos em parte. Ou seja, uma teoria não é mais uma mera hipótese, tendo já passado por testes que confirmam suas premissas.
(3) Quando cientistas falam de uma teoria, falam de um corpo de ideias aceitas pela comunidade científica como descrições adequadas para fenômenos observados. A confirmação é por meio de observações e experimentos, o que os cientistas chamam de método de validação empírica. Quanto mais sucesso tem uma teoria, maior o número de fenômenos que podemos descrever.
(4) Uma teoria de enorme sucesso em física é a teoria da gravitação universal de Newton. Ao propor que objetos com massa exercem uma força de atração mútua cuja intensidade cai com o inverso do quadrado da distância entre as massas, Newton e seus sucessores foram capazes de explicar as órbitas planetárias em torno do Sol, o fenômeno das marés, a forma oblata da Terra (achatada nos pólos), o movimento de projéteis na Terra e no espaço etc. Quando a NASA lança um foguete da Terra ou um foguete colide com um cometa, a teoria usada nos planejamentos das missões é a de Newton. Testes em laboratórios e observações astronômicas mostram que a teoria funciona extremamente bem em distâncias que variam de décimos de milímetros até milhões de trilhões de quilômetros, a escala em que galáxias formam aglomerados atraídas por sua gravidade mútua.
(5) Isso não significa que a teoria (ou qualquer outra) seja perfeita. Sabemos que ela deixa de ser válida quando objetos estão muito próximos de estrelas como o Sol. Correções são necessárias, no caso fornecidas pela teoria da relatividade geral de Eisntein.(6) O fato de teorias não serem perfeitas é fundamental para o progresso da ciência. Caso contrário não nos restaria nada a fazer. E é justamente aqui o lugar da hipótese em ciência, tentando, através de ideias ainda não demonstradas, alavancar o conhecimento, desenvolver ainda mais nossas teorias. Para construir a teoria da relatividade, Einstein supôs que a velocidade da luz é sempre constante e que a matéria curva o espaço. Quando foi confirmado, a formulação ganhou o título de teoria. A pesquisa agora gira em torno dos limites dessa teoria e de como pode ser melhorada.


Marcelo Gleiser - Folha de São Paulo - 02/10/2005
ATIVIDADES – Responda as questões abaixo sem fazer cópias do texto, reelabore as frases.


01. Por que a palavra “teoria” pode causar confusão?

02. Segundo o texto, o que popularmente se entende por “teoria”?

03. Qual é o nome que se dá em ciência para aquilo que popularmente se entende por teoria?

04. O que é uma hipótese?

05. Por que uma teoria em ciência não é uma mera hipótese?

06. O que os cientistas entendem por teoria?

07. Por que a teoria da gravitação de Newton é considerada uma teoria de enorme sucesso?

08. Por que a imperfeição das teorias é o que faz com que a ciência se desenvolva?